Wednesday, October 25, 2006

DIVINA PIADA


Olá, pessoal, tudo certo?

Estou desaparecida desta lista há um bom tempo, mas sempre volto pra
perambular por estas trevas amigáveis. Ou adoráveis. Pra
desenferrujar as juntas, estou enviando um conto meu inédito, que
não é de terror, mas lida com algumas coisas terríveis, por assim
dizer. Espero diverti-los.

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DIVINA PIADA
(POR: Camila Fernandes)
Só pode ser piada, ela pensou revirando os olhos.

O metrô sacolejava anormalmente e com ele oscilava a menina que
insistia em ficar de pé. Quatro anos no máximo, sustentada a
contragosto pelas mãos da mãe, crispadas em torno de seus braços
gorduchos. Gorduchos: não há crianças magras na geração fast food.
Logo a obesidade voltará a ser o conceito de beleza predominante,
ponderou ela, por força ou por símbolo de prosperidade – pra ser
magro hoje em dia, só quem não tem o que comer.

Seus olhos voltaram à menina, já que seus ouvidos não conseguiam se
desligar dela. Cantarolava um funk, a língua pouco hábil tropeçando
na letra cujas palavras ela provavelmente não compreendia. Só isso
lhe perdoava o mau-gosto.

Observou enquanto a mãe aborrecida olhava ao redor e percebia o
desagrado geral dos passageiros. Decidiu que reprimir a filha era
melhor do que incomodar estranhos e começou a ralhar. A menina não
obedeceu. O tapa forte nas nádegas não foi a solução. A cantoria foi
trocada por um choro insistente, calculado para despertar o
arrependimento da mulher, que procurou abafar a cena enfiando uma
chupeta na boca da filha. Esta desabou de propósito no chão,
obrigando a mulher a pegá-la no colo.

Crianças são um porre, avaliou ela, e mães são ainda piores. Então,
lembrou-se com nojo de que não menstruava havia 4 semanas, e todo
mundo sabe o que isso quer dizer.

Só pode ser piada, repetiu de si para si. Mas era pouco provável que
Ele tivesse senso de humor. Grávida, eu? De que jeito? Tinha algum
encanto, mas os homens a entediavam, especialmente quando se
aproximavam dela. Eram então repugnantes. Já pensara em mulheres,
mas como a entediavam! Achava o sexo supervalorizado. O amor, então,
nem se fala: este, sim, uma piada, e bem sem-graça. Amar essa gente,
como?

Deve ser castigo. Sim: pelos anos que passara dizendo-se atéia. Não
é que eu não acredite em Deus, tentara explicar uma vez aos pais. É
só que eu não preciso Dele. E não precisava mesmo, certo? Precisava
de emprego, de dinheiro, de comida, de vez em quando de música e até
de amigos, embora muito pouco. Mas de Deus? Quando lhe ofereceram
Deus ela não soube usá-lo para nada. E como esse fato causasse
horror à maioria das pessoas, ela procurara os grupos anti-religião,
os ateus organizados, cultos, engajados. Achou-os irritantes. Eles
querem erguer bandeiras e mudar o mundo. Eu só quero chocolate e um
controle-remoto.

Mas aí viera o sonho, e ela teria jurado que era efeito da tequila,
se não fosse tão real. O anjo entrara pela porta, gostoso como um
galã de cinema, sentara-se no único sofá do apartamento, piscara os
olhos feitos de céu e passara as mãos pelos cabelos de sol, com ar
contrariado. E soltara: Você receberá um presente de Nosso Senhor.
Você dará à luz o filho de Deus na Terra.
Depois, acendeu um cigarro e foi embora.

Até então ela pensara: sonho besta. Será que meu subconsciente não
tem coisa melhor pra fazer? Mas agora eram três semanas sem sangue.

Não devia ser castigo, porque ela já tinha lido a Bíblia e os
castigos de Deus normalmente eram mais criativos. Teria esperado
virar uma estátua de sal, mas, no lugar disso, engravidara após seis
meses sem uma só trepada e ia ser o instrumento de Deus na segunda
vinda do Messias. Para muitas mulheres, teria sido uma bênção.

Então, era isso? Nem piada nem castigo. Era salvação. O metrô deu um
solavanco e ela se desequilibrou.

– Eu não quero ser salva, merda!

Todo mundo, até a criança gorda, parou para olhá-la, embora isso não
lhes desse nenhuma resposta. Desistiram. O trem parou, as portas se
abriram, ela saiu do vagão como o hausto final de um moribundo.
Xingou de novo. Depois, riu. Ele queria salvá-la. Nada de punição.
Na nova ordem mundial, até Deus quer ser politicamente correto e, em
vez de sentar porrada, passa a mão na cabeça da gente. Desse jeito,
vale a pena ser pecador.

Já sentia cólicas. Então, é assim que começa?, pensou. Uma dorzinha
de nada, chatinha só, depois os vômitos e os tais desejos de
grávida? A coisa só piora. Comigo, não. Tô fora. Não quero ser
salva. Gosto da minha vidinha besta. Amanhã mesmo procuro uma
clínica de aborto.

Não; clínica deve ser o olho da cara. Agulha de tricô tá fora de
questão. Amanhã falo com a Glorinha; ela é tão vaca que já
engravidou umas três vezes e tirou todos, só teve o nenê do Digão
porque ele tem grana. Deve ter um remédio pra tirar isso, erva,
comprimido, eu sei lá. Mas eu vou tirar.

– Salva isto, Senhor!

Riu alto e fez um gesto ofensivo em direção ao céu enquanto entrava
no prédio. Subiu as escadas, tinha medo de elevador. O vizinho que
descia a cumprimentou alegre. Ela conhecia o tipo e retribuiu com um
sorriso doente. Todo dia era o mesmo sorrisinho e de vez em quando
ele vinha pedir coisas, o clássico pacotinho de açúcar, ou convidá-
la para um café. Sai pra lá, pensou. Desiste que eu não vou dar pra
você, não. Sabe com quem você tá falando, mané? Com a mãe do filho
de Deus! Vai encarar? Vai? Heim?

Que bom se toda dor de barriga fosse só vontade de cagar, pensou
arriando o jeans. Mas a cólica chatinha persistia. Urinou sem pressa
e limpou-se com preguiça. Olhou para o papel higiênico.

Caiu numa gargalhada demorada, gostosa, como há muito tempo não ria.
Levantou-se e olhou para o interior do vaso: um fio grosso de sangue
escuro se misturava ao amarelo da urina.

– Tchau-tchau, nenê – murmurou, apertando a descarga.
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Tuesday, June 06, 2006

Fome de Você

Saudações, amigos,

Para desenferrujar um pouco, segue um conto meu que não é novo, mas é inédito aqui. Foi publicado ontem no blog http://www.7erros.blogspot.com/, onde postarei textos diversos toda terça-feira. Aproveito para agradecer a todos que já passaram por lá e deixaram seus comentários.

Este é semi-erótico. Ou não. Vocês decidem.

Camila Fernandes
Fome de Você
(POR: Camila Fernandes)
Você não foi o primeiro, nem o último. Mas foi o melhor. Nenhum antes me satisfez como você, e nenhum outro o fará.

As noites frias sempre acentuaram minha solidão e aquela não foi diferente. Eu saí para caminhar pela avenida no afã de estar entre as pessoas, respirar a sua diversidade e cerrar, de vez em quando, os olhos, concentrando-me nos sons das vozes mais distantes.

Sempre passei despercebida à multidão. Só não consigo entender como é possível que ninguém tenha reparado em você como eu reparei. Ali estava, na esquina, imóvel, como se à espera do destino. Uma capa negra e lustrosa cobria mal-e-mal a absoluta brancura de sua fronte, na qual eu podia ler seus desejos. Venha, você dizia, experimente-me. Obedeci.

Não quis barganhar seu preço. Desconhecia-o e, ainda assim, sabia que valia muito mais do que eu poderia pagar. Eu o envolvi em meus braços, firme como uma amante costumeira, e partimos, velozes, para minha casa.

Acendi a lareira. O fogo crepitou. As chamas lançaram nuanças douradas sobre você, meu mudo convidado. Eu o deixei na sala aquecida enquanto tomava um banho longo e politicamente incorreto. Vesti meu roupão de lã e trouxe vinho seco num cálice de cristal, que você, é claro, não bebeu. Continuou na poltrona, quieto e submisso, como eu o deixara.

Removi a capa preta e encarei-o, cheia de expectativa. Tinha fome de você. Mas, paciência, devia prolongar meu prazer. Eu me servi de um gole do Bordeaux e, então, comecei.

Queria conhecê-lo, explorar os detalhes da sua intimidade com meus olhos, com meus dedos. Sem pressa. Era mais macio do que eu pensava. Eu trabalhava com as mãos. Por uma única vez, toquei-o com minha língua. Sabor de nada. Cheiro de novo.

Você não era como os outros, de cujos nomes já nem me recordava. Tinha muito mais a me oferecer. Deslizei para o tapete felpudo no chão, levando-o comigo. Eu não podia me conter. Estava um tanto cansada, mas não conseguia deixá-lo; você era quase demais para mim. Eu, porém, estava disposta a devorá-lo por completo.

E eu o fiz. Suguei tudo o que você possuía – sua beleza, seu conhecimento, seu drama único. Profundamente. Repetidamente. A noite toda. Você me saciou. Eu o esgotei.

Abandonei-o no chão, sem um segundo olhar. Sentei-me na poltrona e contemplei o bailado do fogo. Eu estava cheia. Mas me sentia vazia. Você era notícia velha. Contentara-me como nenhum outro poderia; eu sabia que nada mais iria me preencher tão totalmente.

Deixo-o, agora, num banco de praça para que seja encontrado por estranhos, na esperança de que estes, passado o espanto e a hesitação, possam absorver de você o que eu absorvi.

Obrigada por tudo o que me proporcionou. Você foi, verdadeiramente, o melhor livro que eu já li.

FIM

Necrópole, histórias de vampiros (hotsite):
www.necropole.com.br

Literatura transtornada:
www.demosentado.blogspot.com

Contos de suspense e terror:
www.necrozine.blogspot.com

Portfólio de ilustrações:
www.camilailustradora.ubbi.com.br

Monday, April 17, 2006

Você acha que eu ligo?

Autora: Camila Fernandes

Se você acha que eu ligo, a resposta é sim. Ligo pra distância entre nós.
Quem te deixou ir tão longe? Quem te deixou riscar meu nome da agenda, rasgar minhas cartas, queimar minhas fotos?
É essa a sua tática? Acha que deixo de existir por causa do que você faz com suas lembranças? Não sou uma memória pra você apagar estupidamente. Eu existo. Goste ou não.
Acha que não sei da sua vida? Que não te sigo pelas ruas? Que não paro na esquina ouvindo o seu papo com estranhos? Que não roço os seus cabelos quando está distraída? Eles ainda têm o cheiro daquele perfume que te dei. Isso você não quis jogar fora, vagabunda.
Eu te dei amor. Você também me amou. Pensa que esse amor vai desaparecer só porque você nega? Eu sou seu homem. Você é minha mulher. Sempre vai ser. E nada do que possa fazer apaga o que eu sou. Eu te amo. Por isso te persigo.
Gosto quando volta do trabalho sozinha, tarde da noite. Mas você não passa pela praça onde quero te fazer parar. Parar de vez. Você vai pela avenida, que é longa, mas tem luz, parece segura, não? Só que eu estou ali, a poucos passos da sua porta, te seguindo, te esperando, o telefone toca na sua bolsa e meu ódio ferve com o seu alô todo sorridente. Com quem está falando? Quem é esse cara pra te ligar a esta hora?
Ele não é nada! Nunca será nada do que eu fui ou do que poderia ter sido se você não fosse tão idiota. Vadia idiota. Quem te deu o direito de me rejeitar? Quem disse que você podia me esquecer?
Mas eu não esqueço. Não esqueço de contar quantas pessoas te telefonam todo dia. Não esqueço de abrir sua caixa de correio pra saber quem te escreve. Nem de seguir seus amigos, ouvir os seus recados nos telefones deles, olhar as fotos do seu fim-de-semana, uma por uma, ver quem te acompanhou, te tocou, te desejou e te imaginou recíproca. Recíproca! O que você sabe de reciprocidade, sua piranha fria? Fria e superficial. Nunca me deixou ir fundo. Nunca me deixou conhecer de verdade o que estava debaixo da sua casca calculada, conveniente, sorriso sem alegria, tristeza sem lágrima. Você sempre usou disfarces. Será que a sua máscara vai cair quando eu...Eu ligo pra você. Ninguém nunca vai ligar tanto pra outra pessoa. Não vê que tudo o que faço tem você como motivo? Se admitisse que me ama eu não te odiaria tanto. Te amo e te odeio em medidas iguais. Você fingir que não sabe me enraivece. Chego a querer te matar. Sabia? Fico pra te matar. Na verdade, é o que eu mais quero! Te ver morta. Pra você saber como é.Queria correr atrás de você, deixar meus passos crescerem nos seus ouvidos, cabeça, coração, bater uma-duas-três vezes, rápido, mais rápido, então te ouvir gritar de medo, prazer, os dois, eu sei lá. Berrar, ser verdadeira uma vez na vida. E não ser capaz de fingir que não estou lá.
Eu faria isso se pudesse. Mas não posso. Não desde que atravessei aquela rua, tarde da noite, sem ver o carro que vinha depressa. Bum. Foi como um coice. Voei longe. E de repente eu não conseguia mais me levantar. Mas só o que eu pensava era: como é que você vai conseguir viver sem mim?
Mas você conseguiu. E como foi fácil.
Queria te ferir. Fazer você se importar também. Doer. Como dói aqui. Mas você é carne, eu sou vento, embaraçar seu cabelo é o pior que posso fazer.
Assim é estar morto: amar e odiar sem ser visto.
Mas vou descobrir como fazer sua alma sangrar diariamente. E depois desse dia você não vai mais me ignorar, vai? Você vai se importar. Vai se debater, se desesperar. Você vai lembrar de mim, dessa vez pra sempre.
Afinal, quem te deixou não ser minha?


Camila Fernandes
Necropole
Necrozine
Demosentado
Camila Ilustradora

Wednesday, March 08, 2006

EU QUERO ENTRAR EM VOCÊ


Autora: Camila Fernandes

Eu quero entrar em você. Não importa a via, física ou incorpórea. Mas é imprescindível que eu entre. Não importa o custo. Eu preciso estar em você profundamente, uterina, latente, subreptiliana, umbilical.

Amor? Ah, não. Não pense que é amor. Talvez um subgênero da paixão, aquela que nos inspira e consome, afinal, estou aqui e escrevo a você pedaços de mim esperando que possa absorvê-los numa osmose intelectual. Só pode ser paixão. Mas também não me tome por uma apaixonada no sentido clássico: aquela que irá render-lhe homenagem, trazer presentes, jogar o casaco por cima da poça de lama e vê-la passar com frieza por sobre o seu orgulho. Ah, não. Não há nada de nobre ou generoso na minha paixão. Ela é essencialmente destrutiva. Uma paixão matadora. O único tipo que vale a pena.

Eu preciso destruí-la para compreendê-la. Que piada! Devore-me, só assim poderei decifrá-la. E talvez nem assim chegue a tanto. Devo destruí-la porque a idolatro. Porque simplesmente não a suporto. Porque você tem a genética ao seu lado e a fortuita combinação dos gametas dos seus pais construiu em você a beleza perfeita, sem pretensão nem disfarce, inconsciente de si própria. Porque a seqüência de eventos infelizes na sua curta vida a dotou de uma bagagem psicológica que faria inveja a qualquer personagem fictício. E você é real. Mal consigo crer, mas é. Sua complexidade me entorpece.Qualquer um adoraria contar uma história sobre você. Eu mesma contei várias. Devo contar esta última.

É por isso que quero entrar em você. Aí dentro deve ser o lugar mais louco do mundo. Preciso fazer parte de você como ninguém mais. Como ninguém quis, soube ou se atreveu. Preciso alcançá-la. Que seja por meio de um beijo roubado, um tapa na cara ou um segredo seu que eu conheça por não ser óbvio – algo absurdo o bastante para abalar o seu ritmo cardíaco. Sim. Um choque contra o seu pedestal. Um abalo sísmico na terra onde você é rainha. Algo que eu tenha e de que você precise. Ou algo que eu tenha e lhe empurre goela abaixo e você não saiba regurgitar. De um jeito que viole tudo o que você é – ah, sim: é fundamental que você se sinta violada. De que outra forma eu poderia legitimar minha invasão?

Quero habitar o que você é, chamá-la de meu mundo e governá-la. Sim, governá-la; para tudo o que é selvagem há um adestrador. Eu quero domá-la. Ser fálica com você. Dizer que não vai doer, mas forçar o caminho entre suas pernas e lamber seu choro. Deixar marcas dos meus dedos nas suas nádegas e uma vermelhidão de roçar no seu rosto. Não soluce, ou eu vou gozar antes da hora. E quando o gozo vier eu serei você. Terei espirrado o pior de mim no melhor de você. Terei arruinado sua beleza, feito da sua pureza uma simples pretensão, um sonho enojante e suburbano; terei definido a fogo minha presença em seus pesadelos, em seus desejos mais simples, em tudo o que sair da sua boca e das suas artes, nos seus versos e olás, na sua prosa e nos seus adeuses. Terei enxertado o que sou em você, um caule partido. O seu broto eu levarei comigo.

Assim eu serei um pouco do que você é, e você um pouco de mim, irremediável ironia, goste ou não. Mas goste um tantinho, sempre. Sei que vai. E nunca mais olharei para você. Será parecida demais comigo.

EU, ASSASSINO

Você já quis matar alguém?
Quem nunca tirou uma vida não pode entender as razões de quem já o fez. Por isso, não tente aplicar a mim as suas noções de justiça, necessidade ou prazer. Vou contar a minha história não para que você me julgue, mas para que a experimente, se for capaz.
Meu pai sempre teve armas em casa. Era colecionador. Eu nunca pusera um dedo em nenhuma, pois sabia que o velho me arrancaria o couro, talvez literalmente. Quando íamos para o sítio da família no interior, ele sempre levava pelo menos uma espingarda de chumbinho. Eu o observava acertar alvos parados, depois móveis, e aquilo podia proporcionar horas de agonia para minha mãe, que ficava mais pálida a cada tiro ouvido a distância. Não é um esporte para pessoas frágeis.
Nosso caseiro era um homem de uns 50 anos, com cara de mais de 60, sem esposa, filhos ou dinheiro, que meu pai empregara por piedade. Mas em pouco tempo os vizinhos do interior começaram a nos telefonar em São Paulo queixando-se de que o homem aprontava nos botecos da cidadezinha, completamente bêbado, arranjando encrenca com os peões. Quando contratamos o pobre viúvo, não sabíamos que era um alcoólatra.
Nas férias de verão, fomos para lá e assim que chegamos demos com a horta nos fundos da casa, de onde mamãe tirava seus temperos e saladas, mastigada por pássaros e insetos. O gramado, amarelo e sem viço, e o pomar forrado de frutas podres que ninguém havia colhido.
O homem foi despedido. Lembro-me dele naquela manhã, sóbrio, protestando. Papai não cedeu. Era um homem firme. Vi o velho ir embora cabisbaixo e senti uma ponta de estranha satisfação.
Na noite seguinte, minha mãe recolhia roupas do varal quando eu a ouvi gritar. Corri para fora antes de meu pai, mais curioso do que aflito, e vi o antigo caseiro segurando-a pelo braço. Ele não passava de um bêbado gritando bobagens, mas ela tremia de pavor.
Eu tinha sete anos e me lembro de tudo isso e do que veio depois tão bem quanto a gente consegue lembrar de quando tinha essa idade. Comecei a xingá-lo, velho feio e nojento, os piores nomes que um rapazinho de família sabia. Papai saiu da casa. Nas mãos, tinha a espingarda. Nos olhos, ódio.
Minha mãe escapou e me arrastou para dentro, trancando-me no quarto.
- Me deixa sair, eu pedia, quero ajudar papai.
Mas sabia que ele não precisava de nenhuma ajuda. Eu queria ver o que ele ia fazer com o homem. Mamãe, não. Por isso, ficou apenas escorada do lado de fora da minha porta, impedindo que eu saísse ou que olhasse pelo buraco da fechadura.
Da janela, entre as frestas da veneziana, vi meu pai levar o velho em direção ao bosque que ficava perto da casa principal, apontando a arma para sua nuca. Abri a janela em silêncio, saltei na grama e os segui à distância.
Fui arranhado por uma dezena de trepadeiras e samambaiaçus que formavam o que para mim parecia uma verdadeira mata pré-histórica, repleta de sons noturnos e brilhos incertos. Andamos por muito tempo, a noite era quente, eu suava de calor e de excitação. Atravessamos muitos trechos de mata densa até que vi os dois pararem. Eu me escondi atrás de um tronco, temendo que me vissem. Não consegui enxergar mais nada. Ouvi suas vozes baixas, sem entender o que diziam. Então, um tiro, e outro, e mais outros. Depois, silêncio. Quando finalmente achei seguro deixar meu esconderijo, meu pai estava tapando um buraco com terra e folhas. Não havia mais sinal do nosso antigo caseiro.
Ele se ergueu e acho que quase gritou quando me viu ali parado. Não se preocupe, papai, eu disse a ele. Não vou contar nunca pra mamãe que você matou o homem ruim.
Ele não disse nada. Andou até o córrego no meio do bosque, lavou as mãos, enxugou-as nas calças. Quando alguém ameaça sua família, você fica louco, murmurou, creio que tentando convencer a si mesmo. Só então sorriu um sorriso forçado. Vai ser nosso segredo, disse.
Contou a mamãe que tinha dado um dinheiro para o velho ir embora e que se aparecesse lá de novo nós chamaríamos a polícia imediatamente. Isso bastou para ela.
Não falamos mais sobre aquilo e eu não perguntei a ele se tinha remorso de ter matado o velho. Mas muitas vezes me peguei deitado na cama imaginando o que ele havia sentido. Se seria excitante apontar uma arma para outra pessoa. Se seria divertido ouvi-la pedir misericórdia. Se seria prazeroso como nenhuma outra coisa olhá-la nos olhos, ver o terror em seu rosto e, ainda assim, disparar o gatilho.
Quando eu tinha uns doze anos meu pai me achou homem o suficiente pra aprender a usar a espingarda de chumbinhos. Tecnicamente, não é nem mesmo uma arma de fogo, pois não dispara movida a explosão, mas a ar comprimido. É coisa pra matar passarinho mesmo. Um brinquedo. Em meus treinos solitários eu imaginava como teria sido matar alguém com aquilo. Um tiro dado bem de perto num dos olhos funcionaria? Seria suficiente para penetrar no cérebro e arruinar tudo? Quem sabe com o cano colado na têmpora da vítima? Ou dentro da sua boca, o chumbinho rasgando a garganta por dentro, causando hemorragia, asfixia?
Fui experimentar minhas teorias. Havia um cão vira-latas que sempre aparecia pelos arredores, certo de receber restos de comida nos sítios. Encontrei-o sob uma árvore na estrada e mirei no olho. Infelizmente o tiro pegou na orelha, e o animal saiu correndo e ganindo, sem que eu conseguisse acertar um outro tiro num ponto mais vital. Mas no mesmo dia tive a sorte de encontrar outro alvo interessante. Estava bem no meio da estrada, semi-atropelada por alguma roda veloz. O corpo estava esmagado no local onde deviam ficar as entranhas. Era uma cascavel, arisca e belíssima em sua agonia contorcionista. Fiquei longe o suficiente para evitar a última mordida do bicho. Mirei bem na cabeça que se movia. Acertei em cheio! Depois, com meu canivete, cortei fora o chocalho da cobra, meu troféu. Carreguei por muitos anos o chaveiro que meu pai fez para mim com ele.
Logo, porém, a velha espingardinha perdeu a graça e procurei outras distrações. Com o tempo, como era de se esperar, comecei a olhar para as garotas com olhos que já não eram de menino. Aos quinze, tive essa namoradinha completamente doida. Era maior de idade e me mostrou o cigarro, a bebida, as drogas e o sexo, de longe a coisa mais interessante da lista. Seu sexo era bizarro e eu, um parceiro perfeito. Fazíamos teatro na cama, empregando uma dezena de brinquedos menos inocentes do que chicotes de couro. Verdade: ela mandava em mim, e suas ordens eram me chama de puta, me bate, me fode. Um dia, ela se jogou no chão e me pediu pra chutá-la. E eu chutei. Não parei de chutar quando ela pediu. Joguei-me sobre ela e apertei seu pescoço até não agüentar mais suas unhas enormes me arranhando os braços.
Ela se levantou ofegando, xingando, juntando as roupas, jurando que ia prestar queixa contra mim na Delegacia da Mulher. Eu disse a ela que a denunciaria antes como corruptora de menores, traficante, prostituta e sei lá mais quantas bobagens que eu era capaz de elaborar e que o seu estilo de vida confirmaria.
A polícia nunca foi me procurar por isso. Nunca mais vi a garota.
Sexo, drogas, badalação: nada disso me satisfazia. Eu levava em mim algo insaciável desde aquela noite no sítio, anos antes. Tinha vontade de procurar meu pai e perguntar tudo. Queria saber sobre o prazer, a sensação de ser superior àquele homenzinho desprezível e esmagá-lo feito uma barata, a noção de ser poderoso, maior do que a lei, a moral, a vida. Mas sabia que ele jamais confessaria.
Eu ansiava por aquilo que faria meu sangue ferver de verdade, algo que ensaiou sua aparição quando acertei o cão vadio, quando acabei com a agonia da cobra, quando arranquei as pernas dos camundongos no fundo da casa... Eu não falei dos camundongos? Eles me entretiveram por alguns anos. Eles e os pardais nas arapucas. Mas isso não é importante. O importante era aquele calor, aquele júbilo doido que tomou conta de mim quando quase sufoquei minha namorada. Essas coisas todas me davam prazer, estar no limite e, quem sabe, cruzá-lo. Mas eu não conheci o êxtase até aquela noite, seis anos atrás.
Eu havia chegado aos dezoito e saía há alguns dias com essa menina bonita, menor de idade ainda, e como toda menina, ansiosa para ser mulher. Sei o que estão pensando: chave de cadeia, certo? Como nem eu nem ela queríamos a intromissão de nossos pais nesse assunto, estávamos nos vendo às escondidas.
Fomos sozinhos a uma casa noturna no centro da cidade. A banda era boa, mas ela prestava mais atenção ao que eu cochichava ao seu ouvido. Soltei meia dúzia dessas bobagens românticas que tornam o caminho entre as pernas das garotas mais largo e rápido. Depois, meus verbos ficaram mais ousados, lamber, apertar, chupar. Ela aceitou voltar comigo para o carro. Vagamos por algum tempo até chegar a um local maravilhosamente deserto, cheio de casebres e terrenos baldios, nada convidativos a curiosos.
Ela era mesmo bonita. Rosto de criança e corpo de mulher, combinação irresistível, e eu não resisti. Inclinamos os bancos e eu comecei a beijá-la. Mas, volúveis, as mulheres acham que podem mudar de idéia no meio do caminho que aceitaram seguir, e ela, boa moça de família, não deixou minhas mãos continuarem roupas adentro, me chamou de apressado, calma que não é assim, eu sou virgem...
Suas mãozinhas prepotentes me empurraram. Era tudo de que eu precisava.
A verdadeira excitação cresceu em mim de forma explosiva e eu me joguei sobre ela. Ela ameaçou gritar, tampei sua boca com uma mão, com a outra eu puxei sua saia, examinei depressa o que escondia. Ela mordeu a mão que a amordaçava. Sem pensar, acertei um soco no seu rosto e travei os dedos em volta da sua garganta. Meu casaco grosso de couro impediu que ela me arranhasse, mas eu não pensava nisso na hora. Ela se debatia. Eu me lembrei dos pernilongos quando a gente os segura por uma perna e vai arrancando as outras devagar. Seus olhos enormes, arregalados, nada entendiam, só suplicavam, a boca muda, aberta como um mundo de novas sensações para mim. Vi as pupilas tremerem e sumirem por sob as pálpebras e a língua pender entre os lábios.
Aproximei meu rosto do seu: não respirava mais. Ainda penetrei o aperto de seu corpo seco, ainda quente, mas logo desisti. Aquilo não tinha mais graça; eu já havia apaziguado a minha sede.
Rodei por muito tempo na via que margeia o rio, madrugada afora, até sair da cidade. Antes que o sol nascesse e o movimento voltasse às ruas, arrastei minha vítima para a margem do rio, fiz uma chupeta no tanque do meu carro e despejei um pouco de gasolina no corpo. Acendi um pedaço de papel com meu isqueiro e joguei-o sobre o corpo. Creio que consegui ao menos desfigurá-lo e apagar o meu toque na sua pele já roxa. Era suficiente; empurrei-a para dentro da água imunda. Achei impressionante ver como foi fácil. Especialmente nos dias seguintes, quando ninguém da polícia veio me procurar.
Mas não resisti a guardar comigo o pingente que ela levava no pescoço. Um pequeno troféu, que guardei junto com o chocalho da cascavel no fundo de uma gaveta.
Naquela noite, conheci a verdadeira paixão da minha vida: a morte. A morte estampada nos olhos de quem encara seus instantes finais, a vida se perdendo sem defesa entre minhas mãos. Isso era poder. Isso era o gozo supremo.
E, sabendo disso, não pude mais parar.
Elas não precisavam ser garotinhas. Bastava que fossem jovens, de pele ainda tenra e olhos grandes nos quais eu pudesse ver meu rosto refletido antes de as pupilas se tornarem baças. A emoção de seduzi-las, levá-las comigo, despistar todos os olhares e então vê-las dar seu último suspiro me dominava completamente. A lábia, a transgressão e então o júbilo da vitória. Sempre guardava uma lembrancinha, anel, presilha de cabelo, até cadarço de tênis, na falta de algo melhor. Não podia manter um registro escrito da minha marca, pois seria muito perigoso, então essa era a minha forma de contabilizar. Minha mãe uma vez até encontrou o estoque e eu expliquei tranqüilamente que eram lembranças de minhas ex-namoradas. Chegaram a um total de doze peças. Uma para cada garota.
Sei o que você está pensando. Se não sinto culpa. Se nunca pensei na dor dos pais, maridos ou bebês dessas mulheres. Preciso confessar que não. O Doutor Junqueira diz que sou um psicopata, o que significa mais ou menos que sou incapaz de sentir remorso. É uma explicação tosca, mas basta para entenderem o que há de errado em mim – ou diferente, como prefiro dizer. Tem alguma coisa no meu cérebro, como uma peça fora do lugar, que me torna imune a esse complexo de culpa que todos tentam me incutir. Não sei se culpa é um sentimento ou um fato. Se for um fato, sim, eu assumo minha culpa, mas se for um sentimento, será inteiramente desconhecido para mim até o dia da minha morte. Não foi erro do meu pai por me passar os valores errados ou mesmo da minha mãe por ser uma criatura fraca. Eu já nasci assim, diz o bom doutor.
Gosto do Dr. Junqueira. Ele é engraçado. Vejo o suor acumular sobre a boca dele e a caneta tremer na mão se ele anota alguma coisa enquanto conto detalhes do meu modus operandi. Desse jeito, acho que não vai durar muito como psiquiatra aqui dos detentos. Não sei se a reação é de nojo ou de prazer. Pra mim, é um pouco de cada. Os homens se escondem sob a moral. O doutor é assim, como meu pai.
Para que não digam que sou completamente insensível, saibam que sempre amei meu velho. Quando terminei a faculdade, me levou para o sítio, que eu já não visitava há alguns anos, e para a farra na cidadezinha próxima. Eu era oficialmente um homem. No bar, me falou de trabalho, de casamento, de família, de todas essas coisas que tornam um sujeito digno e que ele havia sonhado para mim. Bebemos muito, talvez demais, e quando chegamos em casa, de madrugada, fomos praticar tiro em latas de cerveja que íamos esvaziando na boca à medida que precisávamos de novos alvos. Dificilmente acertávamos algum. Eu estava excitado e descuidado, e comecei a fazer perguntas sobre aquele caseiro que ele havia liqüidado há muitos anos. Ele ficou sério apesar do álcool, mas insisti. Perguntei se ele se sentira vingado porque o desgraçado assustara mamãe. Se ele se sentira superior a ele ao dar-lhe ordens sob a mira da espingarda. Se tinha se sentido um homem de verdade ao mandar o desgraçado para o inferno. Porque estava bêbado, ele riu e disse que sim, e que o velhote era um grande filho da puta que já tinha olhado gozado para mamãe mais de uma vez e por isso merecia mesmo um tiro no meio dos cornos.
Então, finalmente, perguntei quantos tiros haviam sido necessários e onde haviam acertado. Se a morte fora rápida ou ele agonizara. Ele se deixou embarcar naquela conversa que em qualquer outra ocasião o teria deixado horrorizado. Aquelas respostas eram o meu santo grau. Nunca me senti tão próximo dele como então.
Eu não tinha a paixão de papai por armas. Preferia trabalhar com as mãos. Expliquei isso a ele quando contei sobre a minha coleção de lembranças das meninas. Falei a ele do meu prazer como um rapaz fala do seu primeiro amor. Ele ouviu em silêncio por alguns instantes e demorou para compreender. Quando o fez, seus olhos se arregalaram e ele começou a gritar comigo. Seu louco, seu desgraçado, oh, filho, não o meu filho, por quê, Deus, e outras palavras que não faziam o menor sentido. Ele andava de um lado para outro, me xingava e murmurava Deus, Deus, o que vou fazer?
Na minha ingenuidade eu confessara a meu pai o que realmente movia minha vida e agora ele me odiava. Disse num ímpeto que ia me denunciar. Você não vai fazer isso, respondi, sou seu único filho, não vai me mandar para a prisão.
Ele berrou, me chamou de criminoso, você tem de pagar pelo que fez. Eu disse que se ele me denunciasse eu contaria à polícia sobre o homem que ele havia matado. Mostraria até o local onde ele estava enterrado. Eu havia visitado aquele túmulo no bosque por anos a fio, em segredo, pensando na vida e na morte.
Ele me olhou com medo, vacilou. Não importa, disse então, e me deu as costas. Tive receio de que fosse para dentro buscar as chaves do carro e correr para a delegacia mais próxima. Papai, chamei, mas ele não se virou. Então, atirei nas suas costas.
Sem mirar, acertei-o entre os ombros e ele gritou de dor. Só então se voltou, e no ímpeto caiu sentado na grama. Eu me aproximei, recarreguei a espingarda, encostei-a na sua têmpora e disparei. Não me lembro de carregar de novo e de novo a arma, mas sei que o acertei repetidas vezes no rosto até ele parar de tremer.
Não. Eu não gostei de matar papai. Eu o amava de verdade. Mas ele ameaçou algo que eu amava mais ainda, e tive de fazer. Tive. E não sinto culpa.
A polícia não engoliu minha história de que, quando acordei na manhã seguinte, papai já havia saído da casa no sítio e eu não o vira mais desde então. Mamãe, sempre tão frágil, desta vez decidiu ser firme. Papai tinha amigos entre gente graúda da capital e ela insistiu com todos eles, pedindo ajuda, influência, dinheiro, o que fosse necessário.
Não foi preciso muito. Não sei se ela já suspeitava de mim, mas um dia mostrou à polícia os meus troféus secretos e um oficial identificou o pingente que a minha primeira vítima usava numa foto. Acabei sendo detido. Mostraram minha coleção às famílias de algumas garotas desaparecidas, que reconheceram uma aliança de casamento, um chaveiro e uma caneta de luxo. Depois disso, confessei tudo.
Não sei realmente se o jornal publicará esta carta aberta, mas sei que alguém na redação há de lê-la. Como você, que me lê agora. E se você acredita que sou louco, tente, uma vez na sua vida vazia, colocar-se no meu lugar e pense de novo nesta pergunta: você já quis matar alguém? Não? Mentira. Apenas não teve chance. O que faria se estivesse lá? Comigo? Em mim? A vítima à sua frente, o desejo de matar na alma e todo o poder para isso em suas mãos.
A morte está em nós como a fome, a sede ou a libido. Está no jogo da sobrevivência. Livre-se dos seus valores morais, das suas leis e principalmente do seu medo de ser pego. Diga, o que sobra?
O que sobra sou eu.
(NOTA DA AUTORA: Os acontecimentos apresentados nesta história são inteiramente fictícios, não reproduzindo a vida de seres humanos reais. Crianças, já sabem: não tentem fazer isso em casa.)

PRELÚDIO DA QUEDA

Autora: Camila Fernandes

Berenice suspirou. Seus olhos eram pálidos faróis; seu rosto era um rochedo severo; seus cabelos, um mar revolto e prateado que inundava seu leito de morte.
Ainda assim, era bela. Belíssima para o olhar do rapaz que lia paciente um livro qualquer, buscando distraí-la de sua dor:
– "A felicidade efetivamente consiste no meio-termo, nem muito alta nem muito baixa; à opulência nascem-lhe cedo cabelos brancos, mas a simplicidade tem velhice longa..."
– Roderick...
– Sim?
– Já basta. Sabe que Shakespeare me põe doente.
– Então, diga-me que livro é capaz de deixá-la sã novamente, minha mãe! – O rapaz procurou sem sucesso conter a emoção na voz contradita, que ecoou nos arcos pontiagudos da câmara. Estreitou a mão da anciã entre as suas.
– A senhora parece tão pequena – murmurou. – Tão miúdos estes dedos que já se enrolavam nos meus cabelos quando eu mal sabia falar.
– Você era um lindo menino – disse a mulher. – É um lindo menino.
Roderick tinha o semblante pálido como o de Berenice, mas aquecido pelo rubor próprio da juventude. Os cabelos pairavam sobre a cabeça como um elemento mais leve do que o próprio ar. Fios finíssimos e brancos. Como os da mãe. Seus olhos eram de um cinza luminoso no qual se podia entrever um ensaio azul. Olhos que agora irradiavam pesar e indignação. A lágrima que escapou de um deles foi regar a face seca da velha, que cerrou os olhos como quem recebe a carícia de um amante. Ela levou a mão rugosa ao rosto do filho, que a acolheu junto à boca, beijando febrilmente seus dedos.
– Mãe. Minha mãe. Não vá, eu lhe imploro. Esta família inexiste sem a senhora. É nossa alma, nosso eixo, nosso alicerce; não sobreviveremos sem...
– Cale-se.
– Mãe!
– Por Deus, Roderick. Cale-se e escute meu último pedido. Com minha passagem, você se torna o senhor deste solar. Deve tratar com moderada indulgência os seus criados; com hospitalidade os visitantes; com reserva os inimigos. Acima de tudo – ouça-me bem – deve zelar por sua irmã. Você é seu protetor agora. É o guardião de nosso nome e de nosso sangue. Dê-me netos a quem possa mostrar meu retrato e dizer: "Sua avó foi senhora de tudo o que você vê." Você deve fazer de Madelyne sua mulher.
– Mãe... – O rapaz continha-se agora; seu tom era de resignada censura. – Bem sabe que amo Madelyne. Mas meu futuro está em Annabel. Ela me faz feliz como uma manhã de primavera que nunca tem fim. Ela...
Os olhos de Berenice cresceram numa fúria reprimida.
– Roderick – crocitou, apertando a mão forte do filho. – Annabel não é para você. Por amor a mim, você se casará com Madelyne. Fará nela os seus filhos, belos e perfeitos. Deve preservar nosso nome, nosso clã, a pureza de nosso sangue. Não se engane. Você deve honrar a casa de seu pai.
– Eu não desejo Madelyne! – esbravejou o jovem. – Peça-me qualquer outra coisa, mãe, e eu de bom grado a atenderei; se pudesse, aqui e agora, trocaria minha vida pela sua e partiria feliz em seu lugar. Mas não me peça que abra mão do meu amor. Eu protegerei Madelyne e a tratarei com honra por todos os dias da minha vida, mas não, não farei da minha irmã a minha esposa!
No exato momento em que a sentença se findou nos lábios de Roderick, estes sofreram a aguda contrariedade da mãe num tapa que quase o mandou ao chão. As frágeis mãos da velha Berenice ainda detinham o poder de uma matriarca, ainda que no leito de morte.
O jovem a encarou, a mão protegendo a face ferida, o olhar rancoroso.
– Maldito infeliz! – gritou Berenice. – Gosta de me ver agonizar lentamente, esgotada pela doença, consumida pela sua traição? Por que não crava de vez uma faca no meu peito? Mate-me! Mate toda esta família! Oh, por Deus... mate-me depressa.
A velha agora tinha o rosto virado, envergonhado, banhado em lágrimas. Seu corpo era sacudido por soluços que logo se transformaram num acesso de tosse. Sons roufenhos subiam por sua garganta, salpicando o lençol de vermelho. Ela levou a mão à boca. O rapaz, comovido, jogou-se aos pés do leito, tomando a doente nos braços.
– Oh, mãe! Minha querida, minha adorada, eu sinto tanto!
– Se sente tanto assim, faça a última vontade de sua mãe. Dê-me netos de sangue puro. Como você e sua irmã. Como eu e seu pai.
Roderick respirou fundo.
– Mãe, eu a amo – disse suavemente. – Mas vou me casar com Annabel. Aceite. Sinta-se feliz por mim. Vá para o outro lado em paz. Eu tomei minha decisão. Nem seu choro, nem sua raiva, nem sua morte irão mudar isso.
Uma ira milenar injetou veias vermelhas nos olhos de mulher, que cresceram como dois sóis furiosos. Agarrou com uma mão os cabelos da nuca de Roderick e mostrou-lhe a outra espalmada, pintada do sangue dos seus pulmões. Mostrou-a como uma promessa. E rugiu numa voz que já não era sua:
– Desgraçado seja, meu filho. Eu o almaldiçôo por este dia, por sua escolha, por sua deslealdade. Saiba, Roderick: Annabel não lhe dará filhos. Secarei primeiro seu ventre, depois seu corpo formoso e por último seu coração. Esta será a duração da vida dela ao seu lado: uma manhã de primavera e nada mais.
O jovem nada disse; um protesto morreu em sua boca aberta em espanto. A mágoa feria sua face, mas a anciã continuou:
– Que estas paredes, estas rochas sejam minhas testemunhas e o túmulo de minha linhagem. Eu o amaldiçôo, Roderick, último filho da casa de Usher!
O rapaz soltou-se de um tranco do toque da mãe. A velha Berenice caiu no leito, afundando, entre os lençóis, minúscula, exausta. Mas seus olhos não abandonaram a figura do filho que se afastava, horrorizado. Sua garganta emitiu um último e áspero suspiro, de sumo sofrimento ou sumo prazer.
E então Berenice deixou de respirar. Mas seus olhos ainda estavam abertos numa alegria diabólica, pregados no nada, eternamente inquisidores.
FIM.
(Berenice, Annabel e Roderick são nomes de personagens de textos famosos do contista e poeta Edgard Alan Poe; Prelúdio da queda pode ser considerado como um fanfic em homenagem ao conto A queda da casa de Usher.)

Vestido cor-de-rosa

Autora: Camila Fernandes

Joelma se acocorou junto da cômoda velha. Esticando a mão, apanhou de lá de baixo o espelho. Moldura de plástico suja, imagem manchada do tempo, mas servia. Encostou-o à parede e tomou distância, tentando enxergar o corpo todo. Sorriu.
Tinha ouvido que as debutantes endinheiradas ganhavam grandes festas com rapazes bonitos. Mas ela, ao completar quinze anos, recebera o vestidinho cor-de-rosa que exibia agora no corpo esquálido. Jeito de menina de doze, magra, seios e nádegas apenas ensaiando uma aparição. Mesmo assim achou-se jeitosa no vestido. Coisa da Tia Nenê.
Seu pai não lembrara a data. Joelma nem comentou. O pobre catava papel de sol a sol, puxando a carroça, e desde a morte da mãe não tinha cabeça para nada que não trabalho. Mas então resolvera queimar o dinheiro todo, que não era muito, no boteco. Joelma pedia trocados no trânsito, a figura raquítica convencia. Cara de criança, aprendera a franzir as sobrancelhas ralas e estender a mão com olhar humilde. Ganhava o suficiente para passar mais um dia.
Agora, diante do espelho manchado, não pensava nos faróis nem nos tostões. Mirava contente o rosto que lhe sorria de volta, dentes ainda bons, pele cor de jambo, cabelos crespos presos no alto da cabeça com a mão. Parecia uma atriz das novelas que ela não podia mais ver, porque a televisão pequenina fora trocada por um colchão grande, quase novo, que dividia com o pai desde que sua cama se desmanchara. Já se acostumara ao roncar ininterrupto.
Desceu feliz a ladeira, de repente mulher, rebolando discretamente. O vestido era curto para ela. Devia ser de criança.
Não ia pedir dinheiro nesse dia. Não com aquela roupa tão bonita. Passou a tarde a esvoaçar pelo morro, sorrindo para os conhecidos, parando às janelas para as fofocas com as tias.
Escurecia quando voltou para casa. Deu com o pai sentado no degrau da porta, jornal sem ler numa mão, na outra, uma garrafa sem rótulo. Olhou-o sem dizer palavra. Escorregou pelo seu flanco, entrando na casa. Melhor arranjar um jantar. Esquentou arroz e feijão sobrados do almoço.
Comeram sem dizer palavra. O pai a olhava esquisito. Decerto notara o vestido. Estava tão bonita nele.
– Parece até moça – murmurou, de repente. – Moça-mulher.
Joelma não conteve o riso. Foi para a cama pensando em não tirar aquela roupa nunca mais. Ficaria assim e seria linda, deixaria de pensar noite e dia em como arranjar dinheiro na manhã seguinte. Em seus sonhos, seria madame, passearia no shopping, iria ao cinema, namoraria universitários. Sairia em capa de revista. Tiraria o pai da favela e o colocaria numa casa com piscina.
Ele estava sentando numa cadeira na cozinha. Garrafa sempre na mão. Com a luz fraca da lâmpada o seu rosto era um borrão e a menina não conseguia ver se ainda olhava para ela. Pegou no sono pensando no futuro, as pernas compridas de fora, as mãos apertando a saia curta do vestido adorado.
Era madrugada. Sentiu uma mão na sua testa. Outra a tocou na coxa descoberta. Sonhava com coisas boas, mas então... não era sonho. Não era bom.
– Pai?
Carinho estranho esse. Continuou. Estava escuro. Joelma não via nada, só sentia na pele uns dedos calejados e ouvia uma respiração forte. Cada vez mais forte.
– Pai.
Era ele, mas não respondia.
– Pai!
Tapou-lhe a boca com a mão.
– Xiu. Quieta.
Devia obedecer, não devia? Ele era seu pai. Ainda era, mesmo depois de rasgar o decote do vestido. Ainda era, mesmo depois de apertar com força a menina que, na noite, na marra, deixou de ser criança.
Virou a madrugada acordada, a mão pesada na sua perna fina, o ronco forte no seu ouvido escuro. Os olhos fixos no nada. A cabeça trabalhando como nunca, assombrada, arrasada. A boca muda mesmo quando ela se levantou, o sol já na janela.
Lá fora, apanhou água da bica e bebeu com pão de ontem, calmamente, como fazia todo dia. Então, voltou para o quarto onde o homem dormia. Pensou em chamá-lo, mas...
Pai?
Monstro?
Ela não tinha um nome adequado para ele. Para o que havia feito com ela. Olhava à sua frente e não sabia mais quem era aquele homem estirado no colchão, um fio de baba escorrendo dos lábios. Sono profundo. Imitava tão bem a despreocupação dos bebês. Sem erro. Sem culpa.
Joelma apanhou de novo o espelho. Olhou para si. Ontem, era menina. Hoje, não conseguia sorrir. Um dos ombros estava nu. O vestido estava arruinado. Já não tinha beleza. Não tinha sonhos.Uma lágrima escorreu por seu rosto, mas o espelho não a refletiu.
Entre as mãos da menina, foi estilhaçado contra a quina da cômoda. Triângulos de vidro de todos os tamanhos caíram reluzentes aos pés de Joelma. Ela se abaixou. Escolheu o mais longo e pontudo e o segurou com firmeza.
Ela olhou para o pai que ainda ressonava.
Ela sabia o que fazer.

Vermelho-Sangue

Ele desperta de um sono profundo e sem sonhos. E percebe – que horror – que seus olhos fitam escuridão e seus dedos arranham madeira. Ele foi sepultado vivo.
Não se pergunta a razão. Apenas grita, e é o único a ouvir seu próprio terror. Tudo o que ele sabe é que, agora, como um verme, deve cavar para viver.
E cava. Não sabe de onde vêm as forças que o tornam capaz de arrancar a tampa de seu esquife ordinário, lasca por lasca, e destroçar a terra ainda fofa que cai sobre seus olhos.
Somente cava. A cova é rasa e o ar gelado da noite não tarda a castigar seu rosto. Está sujo e estarrecido, mas livre.
Julgara-se morto; julgaram-no morto. Por um instante ou por uma eternidade, de fato, esteve em outro lugar, onde seus sentidos de nada lhe serviam. O mundo se apagou. Não viu paraíso, purgatório ou inferno. Agora, jaz de pé, olhando para o próprio túmulo vazio, e teme cogitar que nenhuma dessas coisas realmente exista.
Afinal, então, não foram os céus que decidiram ser bons para com ele? Se Deus houve por bem lhe dar mais dias na terra, por que questioná-lo? Este humilde homem sabe ser grato às dádivas do Senhor. Está vivo; esse conhecimento lhe basta.
Não sabe quanto tempo se passou. Talvez alguns dias. A família decerto ainda o chora e será feliz outra vez com o seu retorno, sob as graças divinas. Tudo o que ele quer é abraçar novamente os dois filhos pequenos e beijar na boca sua terna esposa.
Ele ouve os lobos lamentarem tristemente nas colinas. Nunca a sua canção lhe pareceu tão alta e próxima. Estão ganindo e uivando como se junto de seu ouvido. Apurando a visão, ele quase pode enxergar seus pequenos olhos de rubi na noite. A música que eles cantam é repleta de medo e pena.
As luzes da casa estão acesas e a porta está trancada. Nunca imaginou ter de bater para entrar no próprio lar, mas ele o faz. Seu filho mais velho aparece para recebê-lo; de pronto, é como se não o conhecesse. O menino não amadureceu e o homem sabe que pouco tempo se passou desde que o viu pela última vez. Talvez não reconheça seu rosto. Pode ser pela lama que lhe cobre as faces. Pode ser pelo inesperado que é ver voltar o pai.
A mãe deixa cair a xícara que tem nas mãos ao chão. Não repara que estilhaços lhe acertam os pés; é seu marido que está em casa.
Depois que ela o banha em silêncio, longamente, e o veste com roupas limpas, não é cedo demais para jantar. A família ainda não sabe conter o pranto quando todos se sentam. Lágrimas de alegria e de espanto. Mas não fazem perguntas à mesa. O homem sorri. Contudo, a boa comida da casa não lhe apetece, muito embora seu apetite seja grande. A comida é como barro e o vinho tem gosto de fel.
Via se deitar cedo. Ele está feliz; para as crianças, é como se nunca tivesse partido. A esposa, todavia, reza muito antes de ir para a cama, grata ou aflita.
Eles não se amam esta noite. Ele a beija. Porém, não a quer, como não quis sua comida e sua bebida. Sente o corpo lânguido. Sabe que está vivo, mas não muito. Os lobos ao longe o assanham e o desafiam; só ele consegue ouví-los. O vento também canta. Somente quando o sol boceja no horizonte ele é capaz de adormecer.
Não há quem o faça se levantar para a refeição do meio-dia ou mesmo para um repasto qualquer à tarde. Ao pôr-do-sol, finalmente, ele se sente disposto. O jantar feito com primor pela esposa uma vez mais o desagrada. Ele brinca com as crianças, que nada desejam entender, enquanto ela chora no quarto o mal incurável do esposo, que lhe pôs no destino uma morte mal-morrida e um sorriso esquisito e constante nos lábios.
Tarde da noite, olhos muito abertos, ele conversa com a mulher. Durante o dia, sonhou que padecia de uma estranha doença trazida por um homem pestilento. Ele tinha raiva do mundo. Queria espalhar sua praga por toda a parte e, assim, ter companhia em sua vida amaldiçoada. No sonho, esse homem o atacava e o arranhava nas costas e o mordia na garganta.
Ela se sobressalta. Na outra semana, quando o enterraram, ele tinha feias marcas nas costas e no pescoço. Agora, já não as tem.
Ele quer amá-la esta noite. O corpo dela lhe dá vontades. É quente. Pulsa.
Mal se dá conta do que fez quando ela se debate contra ele, berrando imprecações, com o tenro colo coberto de sangue. Ela leva a mão ao pescoço ferido. Grita muito. Do quarto ao lado vem um choro infantil.
Tudo o que ele vê é o vermelho-sangue. A bonita camisola de rendas que deu a ela quando completaram cinco anos de tranqüilo matrimônio. O colo arfante. Ele vê o vermelho. O sangue.
Os lobos. A lua. As montanhas e o vale. Tudo à sua volta sussurra e parece cantar vitória para o homem, e ele não sabe a razão. A natureza, entretanto, está ao seu lado.
Não se recorda bem; algo aconteceu. Ele estava em casa com sua esposa e seus filhos.
Deveria ter sido bom, mas foi calamitoso e deixou-o zangado. Ele só desejava voltar para sua vida e vivê-la como sempre fez. Abraçar as crianças e beijar a mulher na boca. Alguém gritou. Alguém se feriu, houve fuga e pavor. Nada é como ele quer!
Não se lembra de como fez o que precisava ser feito. Sabe apenas que, de alguma forma, aplacou a histeria de sua mulher e as lágrimas de seus filhos. Ninguém mais está sentindo dor agora. Disso, ele tem certeza.
Mas a noite foi ruim e ele está cansado. Passa a mão pela barriga; está contente, pois não sente mais fome, sede ou ganas de abraços. Basta de abraços esta noite. Seu coração está cheio de dúvida, mas também de satisfação. Ele poderá dormir de estômago cheio e sem gritos ou choradeira a incomodá-lo.
O túmulo que outrora rejeitou lhe parece aconchegante agora. Nascemos do barro; dormir na terra já não lhe soa como má idéia. Ele se deita e ela o acolhe. Cobre-se bem para não ser notado.
É frio e as trevas têm um beijo mais doce do que o de sua esquecida esposa. Tudo está como devia estar.
Amanhã à noite, ele poderá, talvez, sair ao encontro de outras. Escolherá uma nova amada e se fará amar por ela. Dar-lhe-á de presente uma camisola de rendas brancas. Irá abraçá-la e amá-la como somente ele pode amar uma mulher, e irá saciar-se nela. Não haverá gritos dessa vez, nem choro de crianças. Unicamente o vermelho-sangue.
FIM