Wednesday, March 08, 2006

Vestido cor-de-rosa

Autora: Camila Fernandes

Joelma se acocorou junto da cômoda velha. Esticando a mão, apanhou de lá de baixo o espelho. Moldura de plástico suja, imagem manchada do tempo, mas servia. Encostou-o à parede e tomou distância, tentando enxergar o corpo todo. Sorriu.
Tinha ouvido que as debutantes endinheiradas ganhavam grandes festas com rapazes bonitos. Mas ela, ao completar quinze anos, recebera o vestidinho cor-de-rosa que exibia agora no corpo esquálido. Jeito de menina de doze, magra, seios e nádegas apenas ensaiando uma aparição. Mesmo assim achou-se jeitosa no vestido. Coisa da Tia Nenê.
Seu pai não lembrara a data. Joelma nem comentou. O pobre catava papel de sol a sol, puxando a carroça, e desde a morte da mãe não tinha cabeça para nada que não trabalho. Mas então resolvera queimar o dinheiro todo, que não era muito, no boteco. Joelma pedia trocados no trânsito, a figura raquítica convencia. Cara de criança, aprendera a franzir as sobrancelhas ralas e estender a mão com olhar humilde. Ganhava o suficiente para passar mais um dia.
Agora, diante do espelho manchado, não pensava nos faróis nem nos tostões. Mirava contente o rosto que lhe sorria de volta, dentes ainda bons, pele cor de jambo, cabelos crespos presos no alto da cabeça com a mão. Parecia uma atriz das novelas que ela não podia mais ver, porque a televisão pequenina fora trocada por um colchão grande, quase novo, que dividia com o pai desde que sua cama se desmanchara. Já se acostumara ao roncar ininterrupto.
Desceu feliz a ladeira, de repente mulher, rebolando discretamente. O vestido era curto para ela. Devia ser de criança.
Não ia pedir dinheiro nesse dia. Não com aquela roupa tão bonita. Passou a tarde a esvoaçar pelo morro, sorrindo para os conhecidos, parando às janelas para as fofocas com as tias.
Escurecia quando voltou para casa. Deu com o pai sentado no degrau da porta, jornal sem ler numa mão, na outra, uma garrafa sem rótulo. Olhou-o sem dizer palavra. Escorregou pelo seu flanco, entrando na casa. Melhor arranjar um jantar. Esquentou arroz e feijão sobrados do almoço.
Comeram sem dizer palavra. O pai a olhava esquisito. Decerto notara o vestido. Estava tão bonita nele.
– Parece até moça – murmurou, de repente. – Moça-mulher.
Joelma não conteve o riso. Foi para a cama pensando em não tirar aquela roupa nunca mais. Ficaria assim e seria linda, deixaria de pensar noite e dia em como arranjar dinheiro na manhã seguinte. Em seus sonhos, seria madame, passearia no shopping, iria ao cinema, namoraria universitários. Sairia em capa de revista. Tiraria o pai da favela e o colocaria numa casa com piscina.
Ele estava sentando numa cadeira na cozinha. Garrafa sempre na mão. Com a luz fraca da lâmpada o seu rosto era um borrão e a menina não conseguia ver se ainda olhava para ela. Pegou no sono pensando no futuro, as pernas compridas de fora, as mãos apertando a saia curta do vestido adorado.
Era madrugada. Sentiu uma mão na sua testa. Outra a tocou na coxa descoberta. Sonhava com coisas boas, mas então... não era sonho. Não era bom.
– Pai?
Carinho estranho esse. Continuou. Estava escuro. Joelma não via nada, só sentia na pele uns dedos calejados e ouvia uma respiração forte. Cada vez mais forte.
– Pai.
Era ele, mas não respondia.
– Pai!
Tapou-lhe a boca com a mão.
– Xiu. Quieta.
Devia obedecer, não devia? Ele era seu pai. Ainda era, mesmo depois de rasgar o decote do vestido. Ainda era, mesmo depois de apertar com força a menina que, na noite, na marra, deixou de ser criança.
Virou a madrugada acordada, a mão pesada na sua perna fina, o ronco forte no seu ouvido escuro. Os olhos fixos no nada. A cabeça trabalhando como nunca, assombrada, arrasada. A boca muda mesmo quando ela se levantou, o sol já na janela.
Lá fora, apanhou água da bica e bebeu com pão de ontem, calmamente, como fazia todo dia. Então, voltou para o quarto onde o homem dormia. Pensou em chamá-lo, mas...
Pai?
Monstro?
Ela não tinha um nome adequado para ele. Para o que havia feito com ela. Olhava à sua frente e não sabia mais quem era aquele homem estirado no colchão, um fio de baba escorrendo dos lábios. Sono profundo. Imitava tão bem a despreocupação dos bebês. Sem erro. Sem culpa.
Joelma apanhou de novo o espelho. Olhou para si. Ontem, era menina. Hoje, não conseguia sorrir. Um dos ombros estava nu. O vestido estava arruinado. Já não tinha beleza. Não tinha sonhos.Uma lágrima escorreu por seu rosto, mas o espelho não a refletiu.
Entre as mãos da menina, foi estilhaçado contra a quina da cômoda. Triângulos de vidro de todos os tamanhos caíram reluzentes aos pés de Joelma. Ela se abaixou. Escolheu o mais longo e pontudo e o segurou com firmeza.
Ela olhou para o pai que ainda ressonava.
Ela sabia o que fazer.

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