DIVINA PIADA
Olá, pessoal, tudo certo?
Estou desaparecida desta lista há um bom tempo, mas sempre volto pra
perambular por estas trevas amigáveis. Ou adoráveis. Pra
desenferrujar as juntas, estou enviando um conto meu inédito, que
não é de terror, mas lida com algumas coisas terríveis, por assim
dizer. Espero diverti-los.
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DIVINA PIADA
(POR: Camila Fernandes)
(POR: Camila Fernandes)
Só pode ser piada, ela pensou revirando os olhos.
O metrô sacolejava anormalmente e com ele oscilava a menina que
insistia em ficar de pé. Quatro anos no máximo, sustentada a
contragosto pelas mãos da mãe, crispadas em torno de seus braços
gorduchos. Gorduchos: não há crianças magras na geração fast food.
Logo a obesidade voltará a ser o conceito de beleza predominante,
ponderou ela, por força ou por símbolo de prosperidade – pra ser
magro hoje em dia, só quem não tem o que comer.
Seus olhos voltaram à menina, já que seus ouvidos não conseguiam se
desligar dela. Cantarolava um funk, a língua pouco hábil tropeçando
na letra cujas palavras ela provavelmente não compreendia. Só isso
lhe perdoava o mau-gosto.
Observou enquanto a mãe aborrecida olhava ao redor e percebia o
desagrado geral dos passageiros. Decidiu que reprimir a filha era
melhor do que incomodar estranhos e começou a ralhar. A menina não
obedeceu. O tapa forte nas nádegas não foi a solução. A cantoria foi
trocada por um choro insistente, calculado para despertar o
arrependimento da mulher, que procurou abafar a cena enfiando uma
chupeta na boca da filha. Esta desabou de propósito no chão,
obrigando a mulher a pegá-la no colo.
Crianças são um porre, avaliou ela, e mães são ainda piores. Então,
lembrou-se com nojo de que não menstruava havia 4 semanas, e todo
mundo sabe o que isso quer dizer.
Só pode ser piada, repetiu de si para si. Mas era pouco provável que
Ele tivesse senso de humor. Grávida, eu? De que jeito? Tinha algum
encanto, mas os homens a entediavam, especialmente quando se
aproximavam dela. Eram então repugnantes. Já pensara em mulheres,
mas como a entediavam! Achava o sexo supervalorizado. O amor, então,
nem se fala: este, sim, uma piada, e bem sem-graça. Amar essa gente,
como?
Deve ser castigo. Sim: pelos anos que passara dizendo-se atéia. Não
é que eu não acredite em Deus, tentara explicar uma vez aos pais. É
só que eu não preciso Dele. E não precisava mesmo, certo? Precisava
de emprego, de dinheiro, de comida, de vez em quando de música e até
de amigos, embora muito pouco. Mas de Deus? Quando lhe ofereceram
Deus ela não soube usá-lo para nada. E como esse fato causasse
horror à maioria das pessoas, ela procurara os grupos anti-religião,
os ateus organizados, cultos, engajados. Achou-os irritantes. Eles
querem erguer bandeiras e mudar o mundo. Eu só quero chocolate e um
controle-remoto.
Mas aí viera o sonho, e ela teria jurado que era efeito da tequila,
se não fosse tão real. O anjo entrara pela porta, gostoso como um
galã de cinema, sentara-se no único sofá do apartamento, piscara os
olhos feitos de céu e passara as mãos pelos cabelos de sol, com ar
contrariado. E soltara: Você receberá um presente de Nosso Senhor.
Você dará à luz o filho de Deus na Terra.
Depois, acendeu um cigarro e foi embora.
Até então ela pensara: sonho besta. Será que meu subconsciente não
tem coisa melhor pra fazer? Mas agora eram três semanas sem sangue.
Não devia ser castigo, porque ela já tinha lido a Bíblia e os
castigos de Deus normalmente eram mais criativos. Teria esperado
virar uma estátua de sal, mas, no lugar disso, engravidara após seis
meses sem uma só trepada e ia ser o instrumento de Deus na segunda
vinda do Messias. Para muitas mulheres, teria sido uma bênção.
Então, era isso? Nem piada nem castigo. Era salvação. O metrô deu um
solavanco e ela se desequilibrou.
– Eu não quero ser salva, merda!
Todo mundo, até a criança gorda, parou para olhá-la, embora isso não
lhes desse nenhuma resposta. Desistiram. O trem parou, as portas se
abriram, ela saiu do vagão como o hausto final de um moribundo.
Xingou de novo. Depois, riu. Ele queria salvá-la. Nada de punição.
Na nova ordem mundial, até Deus quer ser politicamente correto e, em
vez de sentar porrada, passa a mão na cabeça da gente. Desse jeito,
vale a pena ser pecador.
Já sentia cólicas. Então, é assim que começa?, pensou. Uma dorzinha
de nada, chatinha só, depois os vômitos e os tais desejos de
grávida? A coisa só piora. Comigo, não. Tô fora. Não quero ser
salva. Gosto da minha vidinha besta. Amanhã mesmo procuro uma
clínica de aborto.
Não; clínica deve ser o olho da cara. Agulha de tricô tá fora de
questão. Amanhã falo com a Glorinha; ela é tão vaca que já
engravidou umas três vezes e tirou todos, só teve o nenê do Digão
porque ele tem grana. Deve ter um remédio pra tirar isso, erva,
comprimido, eu sei lá. Mas eu vou tirar.
– Salva isto, Senhor!
Riu alto e fez um gesto ofensivo em direção ao céu enquanto entrava
no prédio. Subiu as escadas, tinha medo de elevador. O vizinho que
descia a cumprimentou alegre. Ela conhecia o tipo e retribuiu com um
sorriso doente. Todo dia era o mesmo sorrisinho e de vez em quando
ele vinha pedir coisas, o clássico pacotinho de açúcar, ou convidá-
la para um café. Sai pra lá, pensou. Desiste que eu não vou dar pra
você, não. Sabe com quem você tá falando, mané? Com a mãe do filho
de Deus! Vai encarar? Vai? Heim?
Que bom se toda dor de barriga fosse só vontade de cagar, pensou
arriando o jeans. Mas a cólica chatinha persistia. Urinou sem pressa
e limpou-se com preguiça. Olhou para o papel higiênico.
Caiu numa gargalhada demorada, gostosa, como há muito tempo não ria.
Levantou-se e olhou para o interior do vaso: um fio grosso de sangue
escuro se misturava ao amarelo da urina.
– Tchau-tchau, nenê – murmurou, apertando a descarga.
O metrô sacolejava anormalmente e com ele oscilava a menina que
insistia em ficar de pé. Quatro anos no máximo, sustentada a
contragosto pelas mãos da mãe, crispadas em torno de seus braços
gorduchos. Gorduchos: não há crianças magras na geração fast food.
Logo a obesidade voltará a ser o conceito de beleza predominante,
ponderou ela, por força ou por símbolo de prosperidade – pra ser
magro hoje em dia, só quem não tem o que comer.
Seus olhos voltaram à menina, já que seus ouvidos não conseguiam se
desligar dela. Cantarolava um funk, a língua pouco hábil tropeçando
na letra cujas palavras ela provavelmente não compreendia. Só isso
lhe perdoava o mau-gosto.
Observou enquanto a mãe aborrecida olhava ao redor e percebia o
desagrado geral dos passageiros. Decidiu que reprimir a filha era
melhor do que incomodar estranhos e começou a ralhar. A menina não
obedeceu. O tapa forte nas nádegas não foi a solução. A cantoria foi
trocada por um choro insistente, calculado para despertar o
arrependimento da mulher, que procurou abafar a cena enfiando uma
chupeta na boca da filha. Esta desabou de propósito no chão,
obrigando a mulher a pegá-la no colo.
Crianças são um porre, avaliou ela, e mães são ainda piores. Então,
lembrou-se com nojo de que não menstruava havia 4 semanas, e todo
mundo sabe o que isso quer dizer.
Só pode ser piada, repetiu de si para si. Mas era pouco provável que
Ele tivesse senso de humor. Grávida, eu? De que jeito? Tinha algum
encanto, mas os homens a entediavam, especialmente quando se
aproximavam dela. Eram então repugnantes. Já pensara em mulheres,
mas como a entediavam! Achava o sexo supervalorizado. O amor, então,
nem se fala: este, sim, uma piada, e bem sem-graça. Amar essa gente,
como?
Deve ser castigo. Sim: pelos anos que passara dizendo-se atéia. Não
é que eu não acredite em Deus, tentara explicar uma vez aos pais. É
só que eu não preciso Dele. E não precisava mesmo, certo? Precisava
de emprego, de dinheiro, de comida, de vez em quando de música e até
de amigos, embora muito pouco. Mas de Deus? Quando lhe ofereceram
Deus ela não soube usá-lo para nada. E como esse fato causasse
horror à maioria das pessoas, ela procurara os grupos anti-religião,
os ateus organizados, cultos, engajados. Achou-os irritantes. Eles
querem erguer bandeiras e mudar o mundo. Eu só quero chocolate e um
controle-remoto.
Mas aí viera o sonho, e ela teria jurado que era efeito da tequila,
se não fosse tão real. O anjo entrara pela porta, gostoso como um
galã de cinema, sentara-se no único sofá do apartamento, piscara os
olhos feitos de céu e passara as mãos pelos cabelos de sol, com ar
contrariado. E soltara: Você receberá um presente de Nosso Senhor.
Você dará à luz o filho de Deus na Terra.
Depois, acendeu um cigarro e foi embora.
Até então ela pensara: sonho besta. Será que meu subconsciente não
tem coisa melhor pra fazer? Mas agora eram três semanas sem sangue.
Não devia ser castigo, porque ela já tinha lido a Bíblia e os
castigos de Deus normalmente eram mais criativos. Teria esperado
virar uma estátua de sal, mas, no lugar disso, engravidara após seis
meses sem uma só trepada e ia ser o instrumento de Deus na segunda
vinda do Messias. Para muitas mulheres, teria sido uma bênção.
Então, era isso? Nem piada nem castigo. Era salvação. O metrô deu um
solavanco e ela se desequilibrou.
– Eu não quero ser salva, merda!
Todo mundo, até a criança gorda, parou para olhá-la, embora isso não
lhes desse nenhuma resposta. Desistiram. O trem parou, as portas se
abriram, ela saiu do vagão como o hausto final de um moribundo.
Xingou de novo. Depois, riu. Ele queria salvá-la. Nada de punição.
Na nova ordem mundial, até Deus quer ser politicamente correto e, em
vez de sentar porrada, passa a mão na cabeça da gente. Desse jeito,
vale a pena ser pecador.
Já sentia cólicas. Então, é assim que começa?, pensou. Uma dorzinha
de nada, chatinha só, depois os vômitos e os tais desejos de
grávida? A coisa só piora. Comigo, não. Tô fora. Não quero ser
salva. Gosto da minha vidinha besta. Amanhã mesmo procuro uma
clínica de aborto.
Não; clínica deve ser o olho da cara. Agulha de tricô tá fora de
questão. Amanhã falo com a Glorinha; ela é tão vaca que já
engravidou umas três vezes e tirou todos, só teve o nenê do Digão
porque ele tem grana. Deve ter um remédio pra tirar isso, erva,
comprimido, eu sei lá. Mas eu vou tirar.
– Salva isto, Senhor!
Riu alto e fez um gesto ofensivo em direção ao céu enquanto entrava
no prédio. Subiu as escadas, tinha medo de elevador. O vizinho que
descia a cumprimentou alegre. Ela conhecia o tipo e retribuiu com um
sorriso doente. Todo dia era o mesmo sorrisinho e de vez em quando
ele vinha pedir coisas, o clássico pacotinho de açúcar, ou convidá-
la para um café. Sai pra lá, pensou. Desiste que eu não vou dar pra
você, não. Sabe com quem você tá falando, mané? Com a mãe do filho
de Deus! Vai encarar? Vai? Heim?
Que bom se toda dor de barriga fosse só vontade de cagar, pensou
arriando o jeans. Mas a cólica chatinha persistia. Urinou sem pressa
e limpou-se com preguiça. Olhou para o papel higiênico.
Caiu numa gargalhada demorada, gostosa, como há muito tempo não ria.
Levantou-se e olhou para o interior do vaso: um fio grosso de sangue
escuro se misturava ao amarelo da urina.
– Tchau-tchau, nenê – murmurou, apertando a descarga.
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